Rancor


Rancor
Um conto de Victor Meloni e Tânia Souza

Dedicado a Henry Evaristo
No quarto escuro, as cortinas moveram-se lentamente enquanto leves respingos negros tocavam o solo de madeira. Na cama, um homem balbuciava em meio a horrendos pesadelos. Uma frase sussurrada entrelaçou sonho e realidade. O lago, mais uma vez o lago e sua superfície negra. Ele se aproximou lentamente. Uma neblina espessa erguia-se em miasmas de madeiras apodrecidas e pedras cobertas por musgos. O tempo todo, sentia-se como se por trás das velhas árvores olhos nefastos o espiassem... No piso de madeira, pequenas poças de água se formavam em direção ao leito. As águas barrentas deixavam sua marca, seu odor nauseante.
— Sr Black....
O homem debateu-se no leito.
— Sr Black... — A voz sussurrava, insistente.— Sr Black, acorde!
Um arrepio de puro horror o percorreu e sentou-se assustado. Sentiu a pele pegajosa de suor. Os murmúrios do sonho ainda permaneciam ao seu ouvido, chamando-o. Ao seu lado, Aimée dormia, ressonando em paz. Há muito tempo Fergus não se levantava no meio da noite, o peito tomado por presságios. A garganta estava seca e em busca de água, caminhou pelo aposento. Saciada a sede, dirigiu-se ao pátio, atravessando-o até a mureta que o circundava.

O inverno ainda não mostrara suas garras, ao contrário, a longa e atípica estiagem parecia não ter fim, mas naquela noite, tudo mudaria. Foi ate a janela e lentamente aspirou o ar da noite. A casa parecia coberta por uma luz esverdeada doentia e o céu encobria, entre as nuvens escuras um luar de envolto em vermelho, enquanto um vento gélido soprava respingos de uma chuva distante.  O frio chegara com a madrugada. As nuvens moviam-se de forma assombrosa e prenúncios de uma tempestade se apresentavam.
A tonalidade expressamente laranja tomava a noite e os andares da pequena fortaleza erguiam-se intocáveis, Fergus Black observou a paisagem pelo telescópio. Algo estava chegando. Poderia pressentir nos pêlos arrepiados dos braços. Nas fundações em pedra, na madeira que rangia levemente ao vento. Nos galhos das arvores agitadas. Voltou os olhos ao confuso labirinto que circundava a mansão onde vivia. Nada além de guardas ocasionais na ronda noturna. A estrada em espiral que conduzia à casa permanecia isolada, vazia. Ninguém ousaria se aproximar do lugar fortemente armado. Do lado oposto, o lago. A superfície pareceu-lhe um negro espelho. Ao longe, a chama de um fósforo e o brilho de um cigarro. Respirou mais calmo, os guardas eram de sua inteira confiança.
De súbito, vislumbrou nas pedras o que poderia identificar como um vulto escuro se arrastando. Fixando o olhar, suspirou aliviado quando uma ave sombria alçou vôo na noite. Observou mais uma vez as escadas em espiral, preparando-se para voltar quando seus olhos foram novamente atraídos para o lago negro, que se movia tal como se estivesse sendo cortado pela travessia de um visitante desconhecido. Arrepiou-se e voltou-se pronto para atacar o dono da mão fria que lhe tocava o ombro. Era apenas Aimée, a Sr Aimée Black, lhe abraçando:
— Volte para cama amor, está frio.
Olhou mais uma vez ao lago, que agora permanecia tranquilo. Vencendo a inquietação, voltou para seus aposentos e, tentando não se lembrar dos pesadelos, logo adormeceu.
No lago, o corpo esguio atravessou as águas escuras. Lentamente o vulto tomava a forma de uma moça que escalava as pedras, o vestido longo e negro desfazendo-se ao contato com a rocha cortante. Os cabelos pingavam e a pele era escura como a noite. Entre as sombras, tudo o que se via era a água vencendo a terra seca, caminhando lentamente em direção a mansão. A voz era baixa, feminina, sussurrada entre desespero e sedução.
—... Sr Black! Venha Sr Black!
Ela estava em meio as águas. Os longos cabelos ruivos e ondulados. A pele apresentava-se úmida como se coberta pelos mesmos musgos que espalhavam-se nas pedras. Black aproximou-se do lago. Um véu enegrecido e transparente se espalhou na superfície. Procurou e suas mãos encontraram um galho na beira do lago. Estendeu-o e tentou puxá-lo, mas quando estas a tocaram,  a renda apodreceu e retornou ao negrume das águas.  Ousou entrar, em direção a ela. Quando vislumbrou um sorriso, ao seu redor o sangue espalhou-se sob o espelho líquido, como raízes rubras, cobrindo a superfície escura pela cor vivida e sanguinolenta.
Sua imagem fornecia os ensejos do desespero imanente. Aquele que opugna todas as virtudes, onde o vício escarnece da hipocrisia inerente a todas estas, sem exceção. Este paroxismo de aflição perpetrava-lhe o cartesianismo irreparável da alma e do corpo. Fergus serviu-se do medo inflexível, sentindo o amargo, o azáfama, forçoso da sua presença. Perscrutou as margens a emanar, recrescidas, o vapor da condensação e sentiu o conluio dos vapores, dos calores, com o malsão. O álgido que lhe cobria à cintura, tilintava-lhe os sentidos. Entorpecia tentativas de lograr a razão naquele endereço. A sobejar em laços encanecidos, misturados ao púrpuro visguento do liquido a dominar o recurso natural, em tranças que em dança lôbrega, abraçando membros enregelados, tronco em expansão, de um parco espírito dessorado pela vívida intenção do espectro.
— Sr Black, por que não atendeste meus desejos? Onde guardava sua máscula natureza nos dias quentes que insistiam em oferecer-me? Sr Black, onde estou agora que lhe quero mais? Sr Black, posso?
Faculdades existem para guiar-nos num mundo onde idéias e seu concreto são necessários. Onde, então, se um desvio obrigatório se apresentasse? Ali, Fergus Black encontrava angústia e dor, sufoco e rancor, miséria e terror. Ali, Fergus Black quedou-se no lutulento resultado das suas escolhas. Da sua pusilânime escolha.
(...)
As sentinelas percorriam os perímetros. Escrutavam as trevas que, em deliberação, escondem-nos as entranhas. O silêncio fazia-os sossegarem. Seu senhor estava em segurança indubitável. Nada passara por seus diligentes olhos. Nada escapara a seus atentos ouvidos. Um ou outro mamífero silvestre. Algum réptil ignóbil. Nada mais. A suave fumaça deixava, ominosa, o fumo que lhes regozijava a carne. A lhes intumescer a garganta cheia de favores e imprecações. Alguns seixos jogados ao lago. Uns repetiam sua trajetória, batendo algumas vezes no espelho d’água. Outros afundavam sem tal peripécia. Todos “a” atravessavam. Os guardas? Nada enxergavam, a não ser um horizonte que se ia, tomado pelo negrume breve. Antes destas trevas, suspenso na superfície glacial, o apodítico destino daqueles que zombam do extraordinário. A sentença cabal dos corações cobertos em chagas, que se resumem no conspícuo aferro da vingança constrangida. Pelo quê? Pelo rancor que crispa todos os espíritos dissimulados pelos sofismas da virtude máxima. Créscimos do que outrora constituía a matéria de Fergus Black, nadavam no espelho devoluto do lago energúmeno pela expropação da bela Reed.
(...)
— Fergus? Querido? Novamente encarando a noite, meu amor? Retorne ao nosso leito. Venha aquecer-se, se não pretende resfriar-se.
A silhueta do homem, desenhada contra a janela pela forte luz da noite que impera, permanecia estática. Em silêncio imperturbável. Aimée toca o lado do cônjuge. Pede sua presença novamente, e recebe o relevo inconcusso de outro corpo a vizinhar-lhe. O músculo régio em seu peito dispara vertiginoso. É obsedada pelas mais viperinas sensações, pois sabe-se em últimas de tempestuosa presença. Vira-se reticente, e encara a face encovada, dona de cabelos encarnados e olhos trêfegos, ávidos por supliciar seu objeto.
— Sra Black, por que deputaste seu senhor a tal empresa encarniçada? Sabia-o de espírito entibiado. Entendeste, desde sempre, minhas razões. Sra. Black, por que, então, me julgaste esta frascária? Sr Black, onde estou? Ajuuuuda-meeee...mãeeee....
(...)
Encontrar a maldade que nasce túrgida da veia imperscrutável de atitudes ominosas é, com freqüência, assaz determinante. E esse recrescer que não ouve súplicas de arrependimento arrebata percuciente todos aqueles que deferiram a natureza do castigo impensado. A doce e bela Reed. A menina que fez da paixão sua lápide ignara. Agora repousa sentenças entenebrecedoras àqueles que não a entenderam. E cobra as dores do espírito, em juros da carne.  

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