Era uma vez, uma floresta...


Era uma vez, uma floresta...
Tânia Souza
     A respiração entrecortada absorvia aromas antigos. Não era a primeira vez que Leena passava por aquele caminho, a floresta era sua conhecida desde sempre, entretanto, dessa vez, a cada passo descobria sinais outrora nunca vistos. Seus passos mal tocavam o chão escorregadio, deslizando entre musgos e plantas mortas, enquanto os pensamentos voavam para o que deixara lá atrás.
    O suor frio queimava-lhe a pele entre os seios ofegantes, os olhos percorriam ansiosos a mata serrada, prevendo a noite que descia. Não ande sozinha... Não fale com estranhos... Mas o estranho não lhe parecera assim tão estranho. Não atravesse a floresta á noite... As vozes que sempre orientaram seus passos desde a infância repetiam-se como um caleidoscópio sombrio, mais que um aviso, uma maldição retumbando no mesmo compasso que o coração de Leena. Medo. O medo percorria-lhe o corpo, estremecendo-lhe os sentidos, ameaçando paralisar suas emoções! Havia sentido os olhos dele vasculhando-lhe a alma. Presa de um fascínio novo, ficara até que o silêncio das horas tardias chegasse e o estranho enfim lhe deixara partir.
     A floresta tornava-se densa a cada passo, e aos sussurros das árvores ancestrais os cipós cresciam, entrelaçando-se em seus caminhos; os olhos da floresta, lendas ou não, pareciam agora maiores, seguindo-lhe os passos, espreitando-lhe o medo.
    Um rumor fluido pareceu sobrepor-se aos outros e eis que apenas um som, um surdo som se fez ouvir acima do silêncio inesperado que acometera a floresta, tal qual um manto cobrindo os vestígios da vida, e esse som era o coração de Leena. Algo estava chegando, ela sabia, algo que sempre a espreitava e a quem sempre pressentira nos seus caminhos pela mata.                                                                                                                      
    Não fale com estranhos... O estranho tocara Leena, e ela não conseguiu, nem quis detê-lo; quando as mãos se aproximaram, apenas esperou, fascinada com os dedos movendo-se e eis que seus cachos caíram, vermelhos e rebeldes espalhando-se feito línguas de fogo no ar. A garota não se lembrava de alguma vez senti-los assim, livres. A avó sempre lhe recomendara mantê-los presos e bem trançados. Tentou dizer a ele que aquilo seria um erro.
    O toque das mãos suaves trouxe-lhe a memória de uma tarde distante, quando distraída em pensamentos raros, a pressa fez com que não seguisse o orientado. Os olhares lançados pelos aldeões confirmaram as palavras da avó: desprezo, constrangimento, muito medo... Só podiam ser imorais em tais tons de sol. Daquela feita, fora arrastada de volta para casa e duramente castigada. De tudo isso, quis adverti-lo, no entanto, quedara-se calada, e os cachos moviam-se como a vida perante as pupilas em brasa do estranho. Selvagem! A primeira palavra que Leena pensou, pronta para algo que não soubera definir. Entretanto, ele a deixara partir.
    Foi o cheiro da noite se aproximando que a despertou e, enquanto o estranho gargalhava, seus passos cruzaram velozes a floresta; trêmula, sentia nos cabelos avermelhados a força estática do ar, correntes elétricas entre ela e a natureza percorriam-lhe o corpo.
     Leena já não andava, corria, tropeçando nos pés descalços, sentindo a força da terra, das pedras ferindo os pés nus, os galhos rasgavam-lhe a roupa, arranhando-lhe a pele, mas não importava, desejava apenas sobreviver... fugir. Mas, inesperadamente, parou. Em frente a ela o conhecido caminho para a aldeia, mais alguns passos e de novo as tranças da avó, o conforto do fogo e da cama quentinha... Leena virou-se, dando as costas ao mundo que conhecia. Era a sua escolha, seu caminho, suas descobertas.
    Olhos!
    Foram os olhos o primeiro registro de Leena: castanhos, ferozes, verdes, irônicos, azuis, compreensivos, lascivos... Olhos de mulheres pálidas e homens lânguidos, seres cuja força adivinhava-se por baixo da pele; entre eles, um sorriso que zombava... e convidava. Lentamente eles a cercaram.
    Consumida por uma febril avidez, Leena viu-se neles refletida. Uma personagem imprudente das lendas antigas? A donzela ousada que pagava pelos erros nos contos sussurrados ao calor do fogo? Dúvidas que percorriam os cabelos desgrenhados, o vestido antes tão claro rasgado em tiras. Deveria fugir, mas a força selvagem que sentira entre as árvores permanecera nela.
    E assim, eles se aproximaram... e se afastaram. Perfume de madeira, flores secas e pinho encheu o ar quando ele surgiu, movendo-se sobre a relva sem tocá-la, até estar simplesmente em frente a ela. O tremor agitava seu íntimo, arrepiava-lhe a pele, e não deixava que a voz surgisse. Seus olhos ergueram-se fascinados e a mão pequena estendeu-se buscando a face pálida, quase transparente. As veias pulsavam com a força do sangue e a febre tingiu sua alma. Desejou senti-lo.
     Quando a ponta do dedo de Leena tocou-lhe a face, ele fechou os olhos, ela sentiu em seus dedos a força da vida que, com a intensidade dos elementos da mais cruel tempestade, empurrou-lhe para trás. Mas não caiu, braços a seguraram, olhos antigos prendiam-na. As mãos de Leena novamente moveram-se, desta vez estava preparada, e uma única lágrima correu solitária na face pálida quando seus dedos percorreram a pele translúcida. De alguma forma, ela soube. Aquele fora o caminho a ela destinado desde que nascera.
     Sentiu o ar embaçado, envolvendo-os numa teia de percepções mágicas e sinestésicas, a neblina inundou-se de aromas desconhecidos, preparando-se para levá-los a algum destino misterioso, quando um chamado dissolveu a magia. Seu nome, clamavam por seu nome, não uma, mas várias vozes rasgando o tempo, pessoas da sua família, amigos, aldeões.
      E sons cortantes de foices, machados, madeiras e armas diversas.
     Houve dor, fogo e a floresta gemeu. Leena gritou quando a levaram dos braços dele; estendendo as mãos, pediu, implorou para ficar. Mas ele estava ferido, no momento em que toda magia estivera concentrada, foram atacados. Mais tarde, nada se lembraria da selvageria com que tentou resistir. Quando a luta tornou-se feroz, um golpe rude tirou-lhe os sentidos e ela perdeu-se em pesadelos assombrados por grunhidos e gemidos de dor.
    O tempo tornou-se desconhecido para ela, despertou do longo sono e viu-se em casa. Chorou por dias e noites a perda de algo que não sabia nomear. O silêncio calou a voz embargada na própria dor. O silêncio calou todos os sons que não vinham de sua percepção interior, via lábios moverem-se, mas nada compreendia.
    Tentou atender o chamado da floresta, entanto, depois de várias tentativas frustradas de fuga, sempre vigiada por faces duras e acusadoras, as lágrimas cessaram. Leena, a moça da janela, agora sabe: ela também sempre fora uma estranha. E o que desfeito foi, desvendado está. Ela traz os cabelos soltos e as crianças da aldeia têm medo de fitá-la, mas seus olhos não se importam, estão perdidos em direção a floresta e ela sabe.
    Um dia, ele virá!

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