Armadilha


Armadilha
Por Tânia Souza
Para Celly Borges e Luiz Poleto
Por alguns instantes, apenas as batidas do meu coração rompem o silêncio enervante e ameaçador. Frio. O escuro ao meu redor. Lentamente respiro e procuro ouvir a respiração dos outros. E mais uma vez a voz suave, perigosamente suave, me indaga, quase implora:
— Conte, o que você fez?
No entanto, meus pensamentos estão confusos e não consigo pensar em algo coerente. Nem mover os dedos dos pés. Ficaram adormecidos pelas pancadas com a barra de ferro das últimas horas. Devem estar fraturados e abençoadamente não sinto a dor. Mas sinto o gosto acre do meu próprio sangue nos lábios rachados pelos socos. Tenho sede, muita sede e a desidratação me enfraquece. Ainda assim, consigo balbuciar:
— Um pouco de água...
Ah, a dor de volta, cruelmente a água salgada escorre pela minha cabeça e minha língua ávida tenta captá-la pesar do ardor dos ferimentos.
— Eu não fiz nada a ela... não sei onde está.
Esta voz rouquenha que me arde a garganta, nascendo de um último resquício de forças não parece minha.  Posso ouvi-los, minha resposta os enfurece. A calma dá lugar a ira. Chutes, pontapés... o refinamento foi embora. Existe muita raiva nas pancadas que recebo. O que você fez? Onde ela está? O que você fez? Velhas e repetitivas, as perguntas giram e me enjoam. O que eu fiz? Saberiam aqueles senhores entender sequer o que havia ocorrido? Ah, Kalinca, minha doce Kalinca. Nem eu o sei.

Depois o nada. Um longo e completo nada e penso em dormir.
Eles se foram.
*
— Temos testemunhas de que estavam juntos lá. Só precisa nos dizer.
A voz é amiga, macia, quase confortante; causa-me, no mais humano em mim, uma necessidade ferrenha de chorar e confessar meus segredos mais íntimos. Posso sentir o carinho na voz do meu inquiridor. Suave como as carícias de Kalinca.
— O que você fez com ela? Só precisamos saber onde ela está e depois... você poderá descansar.
Ele é o mais perigoso, os outros são como bestas, atacam desordenadamente, bufando, violentos e insanos. Este da voz macia se compraz, sorri com a dor, convence, quase seduz com a idéia de que a dor é tudo que precisamos. A tortura é uma arte que aprendi a conhecer muito bem.
Kalinca, ah, doce Kalinca, seus risos, sua dança. Querida Kalinca. Quase choro com as lembranças vivas dela.
— Não sei de nada. Me deixe ir — trêmulo, repetindo a mesma sentença como uma ladainha.
A dor.
Novamente a dor.
Com que requintes o homem sabia aplicá-la. Lenta, quase infinita, não intensa, não letal, apenas lenta e contínua dor.
O tempo deveria ser indefinido aqui, no entanto, apesar da venda nos olhos e dos horários irregulares, nos quais sou interrompido por diferentes torturadores, posso detalhar os minutos e segundos que passo aqui, nesta sala fétida. Desde a noite em que ela se foi.
Controle, meu controle está indo embora, um laivo de insanidade me espreita, sinto vontade de gargalhar. O escuro me ajuda a conter os instintos.
Tenho sede.
*
Mais uma vez o silêncio me machuca. Não sei onde eles estão, apenas o escuro da venda sobre meus olhos, a dor dos ferimentos e as noites roubadas. Desmaiei por algum tempo e a febre me consome. Minha boca sofre a falta de água, mas não há justiça nos métodos destes homens. O pai de Kalinca está aqui, todos os dias ele vem. Deve ser difícil para ele não poder me matar com as próprias mãos, somente a crença de que eu possa dizer onde ela está permite que eu ainda viva. Entretanto, não sei o que houve, tenho lembranças vagas sobre a última vez que a vi e a dor que tenho vivido embota meus sentidos, os delírios têm sido constantes em meio à sede, a fome e a dor.
Kalinca... A primeira vez que a vi, ela dançava e seus risos espalhavam-se pelo ar. Impossível não amá-la. Mas não contava que ela pudesse me amar.
Perseguiu-me, inexoravelmente, no furor do primeiro amor. Rica, bonita e determinada. O pai, literalmente, o dono da cidade. Tudo o que eu não precisava, portanto fugi. Mas sou homem e fraco, a pele jovem e fresca, o riso feliz, o semblante carinhoso diluíam minha resistência, em poucos dias após minha chegada na cidade eu já a amava. Foi quanto tudo aconteceu. Numa noite calma e sem luar, brisa leve nas árvores, fui convidado a uma festa. Ela estava lá, a atração foi irresistível e estivemos juntos por toda a noite. Por alguns dias, cedi ao seu fascínio singular.  No entanto, resolvi deixá-la. Comecei a fugir, fui rude, maltratei-a mais de uma vez, pois não acreditava no amor nem nos caminhos obscuros pelos quais nos levariam.
Certa noite, recluso em casa, preparando-me para um sono sem sonhos, ouvi os chamados no portão do velho sítio que escolhi por morada. Uma amiga de Kalinca implorava:
— Vem comigo, ela vai fazer algo horrível, por favor, só você pode ajudar! — As palavras vinham entrecortadas por soluços e lembrei-me da voz meiga dizendo que viver sem mim não seria vida. Segui o carro da moça temendo pela vida de minha querida, angustiado pelas lembranças das palavras bruscas que usei para afastá-la.
Dirigimos por uma estrada esburacada que levava a uma casa pequena na beira do rio. Desci e com a pele coberta pelo suor inquiri à jovem. Ela me dizia confusamente que, entristecida sem mim, Kalinca resolvera morrer, trancando-se ali com armas letais. Trêmulo, chamei por ela até que uma porta abriu-se levemente e entrei. Ela estava viva.
Uma armadilha! Do amor, do destino! A garota lá fora buzinou risonha e partiu. Eu estava preso junto a mais doce pessoa que conhecera. Que dizer? Amei-a com paixão. No entanto, quando mais tarde tentei sair, me descobri realmente preso. Eu deveria ter percebido, resquícios de morte e dor impregnavam o ar, mas tão concentrado estava em Kalinca que ignorei meus sentidos. A casa, servindo aos objetivos escusos do pai, era em verdade uma prisão, a única chave estava com a amiga e esta só viria depois de três dias. Depois de tentar sair de inúmeras formas, aceitei. Três dias. Pensei que seria o suficiente, mas não contava com o destino.
Foram três dias de alegria, de amor e risos, tudo estava preparado para nós dois e nada nos faltou. Eu nunca fora tão feliz. No entanto, ela não veio na terceira noite, nem na quarta, nem na quinta. Até que no sexto dia, a noite chegou e o medo me invadiu, se ela não viesse, seria tarde, muito tarde. A prisão forçada começava a inquietar minha amada, que chorosa pedia-me perdão. Eu guardava minhas apreensões em silêncio, angustiadamente, sentia a ameaça que nos rondava. Caminhava na minúscula sala como uma fera enjaulada. Sim, uma fera enjaulada, eis o que eu me tornara.
Ah, minha doce Kalinca. O que você fez?
*
Frio, sinto o frio cortando minha pele. Não sei onde estou. Deitado nesse canto obscuro de um esgoto fétido, as lembranças vão retornando. Eu ainda estaria lá, naquela sala minúscula? Sonho e realidade se confundem.
Lembro-me de estar vendado, dos dias de imobilidade forçada, da dor, da pressão e dos sentimentos confusos acumulados forjando uma intensa explosão interna. Nos meus delírios, podia sentir o controle perdido, a besta se aproximando, tênue, estendendo as garras imundas e tocando minha pele por dentro. Eu me lembro: uma risada debochada escapou pelos meus lábios feridos e me assustei com sua ferocidade. Foi o riso que os descontrolou, entretanto, já era tarde.
A fera estava à espreita, aguardando. Podia senti-la na febre que me consumira.
— Ela te amava sabia? Minha menina te amava... — eu sabia quem falava, apesar de não ver o rosto nas sombras, reconhecia a voz do banqueiro, sem orgulho, sem raiva, apenas em desespero contido, enquanto ele saia do aposento. — E eu não pude impedi-la.  
Sofri mais um ataque feroz. A dor já não importava nesse momento, apenas a febre, a fera. E eu ria debochadamente. Podia ouvi-los pela respiração ofegante, eram quatro.
— Querem saber onde ela está? — é sempre assim quando a fera vem, suplanta meus sentimentos e obscurece a razão. Deleitei-me com o suspense.
— Está aqui, comigo! Ela vive em mim, na minha carne, no sangue que me embriagou, na carne que me satisfez. — e eu ria, ria e ria enquanto o choque perante meus gritos paralisou os homens que por vários dias buscavam a resposta. — AH, MINHA DOCE E SABOROSA KALINCA.
Mas então a dor voltou, intensa, feroz. Os espasmos me contorciam, me dilaceravam, minha pele estava sendo rasgada, minhas unhas cravaram-se na minha própria carne e uivei. Uivei e o tecido que me cobria desapareceu enquanto os pelos me feriam, rasgando sua própria trilha nos meus poros, o sangue fervendo em instinto puro. Meu último pensamento foi a certeza de que a noite chegara: a lua nasceu e com ela, a fera me vencia mais uma vez.
*
Depois acordei aqui e sei que estão mortos. Simplesmente assim. Os homens daquela sala morreram.  Menos ele que me observava em outro aposento. Sei que ele fugiu quando a fera se soltou. Mas jamais irão crer nas palavras de um velho consumido pela dor da perda, desesperado para encontrar a filha desaparecida. Meu segredo está garantido, debalde ele me persiga, será apenas mais um em busca de uma vingança infrutífera.
Não, não tenho lembranças daquela noite, nem da noite em que Kalinca se perdeu. Quando a fera vem, quando ela vai surgindo devagar, a terra gira e o luar vai aparecendo, ah, posso sentir o veneno, o sabor, o prazer que ela usufruiu e algumas lembranças emergem. Mas, nunca tenho clareza sobre os fatos. Despertar coberto por sangue, cercado por carne dilacerada já não me surpreende. Um mito, um deus, uma lenda? Não, é apenas o que sou, o meu legado, a minha sina. Um lobo oculto na pele de um homem. Atravessando cidades, tentando encontrar uma existência normal até que o próximo luar liberte a fera que vive em mim.
Então, o lobisomem uivará mais uma vez e não sobrará carne alguma sobre os ossos.
*
Conto publicado na antologia Histórias Fantásticas Vol I - Editora Cidadela

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