Um conto de Natal



Um conto de natal
Tânia Souza 

I

Ela sorriu... Os flocos gelavam o seu nariz. Ia e vinha no balanço enquanto a neve descia sobre a cidade. Poderia voar. As outras crianças também sorriam. Mas algo não estava perfeito. Em um canto, olhos claros e maléficos a observavam. A neve agora escurecia. O tom era avermelhado e parecia cortar como veias trincando a brancura. Ergueu os pés horrorizada, a neve de sangue não iria tocá-la. Mas os flocos vermelhos caíam do céu e iriam sujar seu vestido e seu rosto. Ficariam cobertos por sangue. Eram apenas crianças. Começou a gritar.


— Mãe! Acorda! Acorda, mãe!  — a menina a sacudia, mas ainda assim, Andréia se debatia na cama, presa no pesadelo vermelho e insano. Os olhos de Mirella estavam arregalados. Até que finalmente a realidade começou a se impor e ela abraçou a filha.
— Você teve um sonho ruim, mãezita? Tava gritando, fiquei com medo...
— Eii mocinha, já passou, foi só um sonho ruim, está bem? Bom dia, meu amor.
A menina sentou-se na beirada da cama.
— Você tá tendo sonhos ruins direto mãe, por quê?
— Ah, não sei filha, mas vem cá, tenho um segredo para te contar, shiuu, não espalhe, mas...  você sabia que eu te amo, te adoro, te quero de montão? Cadê meu cheiro?
A menina começou a rir, adorava a brincadeira desde que era ainda bebê.
— Também te amo, te adoro, te quero de montão! Fomeee de bolo, mãe!
E sumiu porta afora enquanto Andréia tentava esquecer os horrores do pesadelo. Mas antes que reorganizasse as idéias, a cabeça loira apareceu novamente na porta:
— Dia de montar a árvore!
           Apenas mais um dia começava. Mas um dia que ficaria para sempre marcado naquela pequena família. Pela primeira vez, poderiam aproveitar o momento de montar a árvore de natal, em uma casa só para elas, um momento de tranquilidade numa vida conturbada que ficara para trás.
Sentadas no chão da sala, Andréia olhou para a filha, os olhinhos da menina brilhavam de alegria. Da caixa, os produtos embalados e algumas lembranças do passado. A menina tocou um pequeno globo natalino.
— Que bonito, mãe!
Sacudiu de leve. A neve caía sobre uma cidade em miniatura. Era o trabalho de um artista. Cada detalhe esculpido com perfeição, pessoas, automóveis, pequeninos animais, ruas, detalhes que impressionavam. Andréia procurou e encontrou a lupa que acompanhava o objeto.
— Aqui filha, vai ver melhor.
— Uau! — No interior do globo, uma placa convidava, aproximando bem a lupa, era possível ler, “Seja bem-vindo ao Paraíso”. — Posso ficar com ele, mamãe?
Andréia suspirou, a menina a olhou, sabia reconhecer a tristeza nos olhos da mãe, mas aprendera a não perguntar muito. A convivência com adultos obrigara Mirella a amadurecer cedo demais.
— Um dia, então?
A mãe arrumou os fios de cabelo da menina que estavam esparramados e sorriu.
— Um dia sim, minha filha.
Andréia observou o globo, por muito tempo não o vira, a única lembrança da família que levara para o orfanato. Um objeto que lhe fizera companhia tantas vezes e que tantas vezes tentaram tirar de sua vida. Talvez fosse bobagem, mas era o seu único elo com o passado. Lembranças da mãe que morrera de uma forma horrível e solitária, enforcada num quarto de hotel, deixando apenas um passado de crimes que ela não quisera trazer de herança no nome, alguns papéis e o pequenino globo natalino de herança que carregou consigo nos vários orfanatos por onde passou. Estendeu as mãos e o tocou. Tudo que vivera, alegria ou tristeza, dividira com esse objeto, já tivera medo da força dele, mas era então uma criança. Árvore pronta, mãe e filha sentaram-se no sofá para contemplar a obra. Os dias seguiam e logo seria o Natal.


II


Mirella acordou cedo, a mãe já havia ido trabalhar, nesse horário, a vizinha ainda dormia. Sobre a mesa, o café da manhã a esperava. Ligou a televisão, “Uni!!” um menino gritava em desespero, dividido entre voltar para casa e salvar a amiguinha. “Vamos Uni, você consegue” o unicórnio tentava escapar da armadilha, as crianças do desenho voltavam para ajudá-la, enquanto mais uma vez, o portal se fechava. A menina mudou de canal e pegou o globo e a lupa. Adorava o natal.
            Na cidadezinha em miniatura, a neve cobria as ruas e crianças brincavam. Renas e um Papai Noel desciam na cidade com um saco cheio de presentes, pessoas saiam contentes das lojas, com sacolas cheias. O que será que ela iria ganhar? Estava preocupada com a mãe, o pesadelo deveria ter sido feio, não gostava de ter sonhos ruins, acordava com medo no meio da noite. Se o pai estivesse ali, talvez a mãe não sonhasse mais com o que a assustava. Gostaria de pedir o pai de volta para o Papai Noel, mas sabia que não era possível. Olhou o Papai Noel e ficou arrepiada, parecia que ele estava sorrindo para ela. Encostou a lupa bem pertinho do globo e uma das crianças do balanço virou a cabeça lentamente para ela e se levantou. Mirella gritou. Não era possível. Mas a menina se aproximou do vidro e sorrindo, estendeu a mão. Deveria ser um sonho. Não era real. Mas a menina ainda sorria e a mão continuava estendida. Curiosa, ergueu um dedo e quando ia tocar a superfície, a porta se abriu e a vizinha entrou tagarelando. Com o susto, deixou o globo cair e com seu rosto pálido, foi difícil convencer a alegre mulher que não estava aprontando nada.
            A curiosidade era tanta que mal ficou sozinha, foi tentar novamente, fechou a porta do quarto e continuou a observar o Papai Noel dentro da redoma de vidro. Os olhos azuis do homem a fitavam novamente. Fechou os seus com força e pensou novamente na menina do balanço. Quando abriu os olhos, as pessoas dentro do globo se moviam, era mágico, era um sonho se tornando real. Por isso a mãe não queria lhe dar o globo ainda. Seria aquele seu presente de natal? O coração da menina disparou com a emoção e quando as crianças do parque lhe estenderam a mão, aceitou a oferta. De alguma maneira, estava lá, na cidade encantada.

A neve caía sobre seu rosto e as pessoas eram risonhas e felizes. Procurou pelo Papai Noel, mas não o viu. Se a cidade era real, ele também existia. Poderia enfim fazer o seu pedido. Estava na rua principal, em frente a uma loja de doces. Duas crianças sorriam para ela e entraram na loja. Entre as mais variadas delícias, marionetes se moviam ao som de canções natalinas. Um trem corria pelos trilhos iluminando a loja inteira.
— Onde eu estou? — Mirella sabia que estava sonhando e sonhos não dão respostas, mas mesmo assim perguntou.
As crianças somente davam risadas e sorriam. Andou por vários cantos da cidade encantada, vendo com detalhes o que antes estivera espiando pela lupa, era um universo fantástico do qual não queria nunca mais acordar.
— Onde ele está? O papai Noel?
— Quem?  — as crianças não pareciam saber quem ele era, mas Mirella o descreveu, o homem da barba longa e das renas, dos presentes. Algumas sorriram, outras abaixaram o rosto e se afastaram. A garota que a convidara pela primeira vez disse enfim: — Ele ainda não pode vir, mas se for uma boa menina, ele virá!
            — Ele gosta de construir, não vem muito aqui.— o garoto coçou a cabeça e olhou para Mirella. — Você quer brincar?
            — Que lugar é esse?
— Nos o chamamos apenas de paraíso dos sonhos!
As horas estavam passando e Mirella sentiu falta de casa. Era hora de ir embora. As amigas sempre lhe ofereciam algo de novo para ver, um novo cantinho, uma promessa.
— Eu preciso ir, mas prometo voltar! — Mirella podia ouvir a voz da mãe chamando por ela, pedindo sua presença.
— Você não pode, não gostou de ficar aqui?— a menina começou a chorar — Não pode ir, você deve ficar aqui conosco.
— Minha mãe está sozinha, ela precisa de mim, mas eu volto está bem?
— Ele não vai gostar se você for! Deve ficar para sempre.
A moça das compras deu um sorriso triste
— Ela nunca veio, você sim, não vá embora! Está tudo bem agora.
Mas nada estava bem, as crianças não mais sorriam e a garota segurava o seu braço com força.
— Me deixa ir — suplicou Mirella, eu volto.
— É mentira, todos mentem.
O braço doía muito onde a garota apertava.  Quando a terra tremeu sob a cidade, um longo trincado vermelho se espalhou na neve. A tempestade aumentou e a garota largou o seu braço, olhando para cima.
— Vá de uma vez, ela está te chamando. Mas se não voltar, eu vou te buscar. Não esquece, Mirella, eu vou te buscar. E a ela também.

Mirella abriu os olhos assustada. A mãe estava chorando ao seu lado, a vizinha parada na janela, olhando a paisagem lá fora. Havia dormido por três dias seguidos, o braço estava enfaixado. O médico viera, mas nada além de sono comum fora identificado. Três dias. Subira ao quarto para brincar depois do almoço e não mais acordara. Teria sido um sonho? Mas o braço ferido não a deixava esquecer a força com que a garota a segurara. Não, não fora um sonho, e onde quer que estivera, não fora no Paraíso.


III

Havia alguém seguindo seus passos, podia sentir a presença cadenciada do seu perseguidor. Olhou mais uma vez para trás. Mas não havia nada além da noite. A corrente elétrica que passava pelo enfeite de luzes natalinas que adornava a rua oscilou e as poucas luzes que não estavam queimadas prosseguiram piscando num triste arremedo de alegria.
Os pés doíam, e seus passos ecoavam na calçada; o olhar, antes perdido na decoração, agora espreitava desconfiado as ruas vazias. Apesar das compras desenfreadas de dezembro, a madrugada era solitária com os poucos que a enfrentavam. A sensação de medo a oprimia e ela caminhava apressada, o corpo oscilando sobre os saltos no chão irregular.
O eco dos sapatos escondia os passos do perseguidor, mas ela podia senti-los dentro de si, na latência dos saltos do coração. O suor escorria entre os seios, nas costas e a respiração faltava. Encostou-se ao muro e tirou as sandálias.  Um carro passou e o motorista, claramente bêbado, gritou “Feliz Natal, piranha!”, ela levou um pequeno susto, mas ignorou e continuou seu caminho. A sensação de medo exauria suas forças, sentia a boca seca e o corpo trêmulo. Logo iria vomitar.
Lucia...
Era o seu nome. Seu verdadeiro nome. Muito tempo havia se passado desde que alguém a chamara assim. O nome que ficou para trás quando deixou o orfanato. Andréia arrepiou-se completamente, diminuiu os passos e pareceu-lhe ouvir novamente. Voltou a cabeça para trás, mas não viu nada. Pensou na filha sozinha em casa e as mãos tocaram o frio aço da faca que carregava na bolsa. Com cuidado, sentiu o corte afiado e respirou, contando até dez para se acalmar. Todos os dias, esperava não usá-la, apesar do cuidado com que a deixava sempre afiada. Preparou-se para correr quando um grupo de jovens virou a esquina, nesse momento, a sensação de medo foi embora. A cidade crescia e os perigos surgiam de todos os lados. Mas o medo que a oprimira naquela noite não viera de pessoas comuns, era um medo mais antigo, inexplicável e enraizado no mais profundo do seu ser. Um medo sem nome. Sem perguntas. E sem respostas.
Mas se houvera de fato um perseguidor naquela noite, ele fora embora, e logo ela estava em casa, em segurança. 
A sala era simples, em um canto, a árvore de natal pequena, envolta em luzes coloridas e três presentes embaixo. Sorriu, lembrando-se da euforia de Mirella. Enrolada na manta colorida, a menina dormia no sofá, esperando por ela. Toda a tensão foi embora quando pegou a filha nos braços, levando-a para o quarto que dividiam. Aquela era a sua rotina, o trabalho não lhe dava muito tempo para ficar com a menina, mas permitia um mínimo de sobrevivência , a vizinha olhava a garota por ela. Foi até a geladeira e pensou mais uma vez na voz que ouvira, há muito tempo isso não lhe acontecia, e já não lhe interessava saber sobre isso, não queria mais respostas, desde que a filha nascera, esquecera todas as perguntas, queria apenas paz. Era a sua casa, o seu lugar seguro, os pesadelos ficaram para trás, o Natal estava chegando e tinha sua filha, o seu pequeno tesouro. Um carro passou e a luz dos faróis se refletiu no globo natalino que enfeitava a estante.
Lucia!
Despertou assustada com o sussurro, parecendo um sopro gélido no ouvido. Havia adormecido no sofá. Em suas mãos, a única lembrança da mãe. Encostou a cabeça suavemente no sofá e o sacudiu.  A neve caiu sobre a cidade e as crianças brincavam no balanço do parque. A sombra que estivera pesando seu coração pareceu se estender sobre o objeto e cobrir as miniaturas e o coração de Lucia acelerou. Deixando o objeto sobre a mesa, foi para o quarto. Mãe e filha dormiam, abraçadas. Uma névoa atípica para dezembro envolveu a madrugada e cobriu o quarto onde dormiam. Os sonhos que viviam não eram nada acolhedores.

            Lucia! Acorda, Lucia! Não deixe ela  ir. Lucia se levantou assustada, mas ao seu lado, Mirella dormia calmamente. A sua boca estava seca, fechou os olhos e voltou a dormir. Viu a moça andando pelas ruas, ela a conhecia, não sabia quem era, mas reconhecia. Algo ruim iria acontecer.
Do outro lado da rua, a casa dos estrangeiros, Lucia sabia que o gringo morava lá, a mãe trabalhava para os gringos, Ninguém sabia a profissão do gringo. Nem a nacionalidade exata. Ouvira os pais comentando que ele era rico, muito rico. E que escondia algo. O pai Antonio havia prometido que seria a última vez, e a mãe chorou porque estava cansada, agora Lucia podia reconhecê-la, caminhando pelas ruas, a mão escondendo algo.
— Feliz Natal, moça! — o homem vestido de papai Noel gritou do outro lado da rua iluminada, Lucia se escondeu, quando viu que a mãe se assustou, mas ela logo acenou em resposta, arrumando os cabelos atrás da orelha, foi em direção ao lado oposto. A mãe não gostava de NatalDo outro lado, o pai assoviou, a mãe estava segurando algo, frio e escuro, era uma arma. Lucia tremeu de medo.
Havia algo de muito ruim na casa do gringo, algo que ela não sabia definir, mas que a incomodava. Entraram. A sala quase às escuras, a única luminosidade vinha da árvore de natal. As luzes piscavam multicoloridas e brilhavam na superfície dos enfeites natalinos. Por todos os lados, sinais da data festiva: duendes e renas em miniaturas dançavam, a perna de um Papai Noel descia eternamente pela lareira e um trem corria pelos trilhos ao som de uma canção natalina. O gringo trouxera o natal com ele. Ela se arrepiou, nunca gostara de marionetes, pareciam ter vida aqueles pequenos seres de madeira e tecido, eternamente se movendo.  Todos os objetos haviam sido feitos por ele, a mãe contava que o homem passava os dias criando os pequeninos, como os chamava. Com tal empenho e perfeição que chegavam a ser assustadores. Os olhos eram escuros e brilhantes, como se tivessem vida. Quando precisava limpar aquele cômodo, era com verdadeiro terror que Claudia o fazia. Tudo isso impressionava Lucia, ouvindo a conversa dos adultos, quietinha atrás das portas, e agora, podia ver tudo pessoalmente. Só  vira a dona da casa uma vez, ela cheirava cachaça e parecia tonta ao andar, o olhar vazio, nunca vira as crianças e tinha muito medo do gringo. Mas era principalmente o olhar dele que ela temia. Frio, cruel, desiludido e capaz de coisas que não conseguia dimensionar. Se escondia desde então quando o via.
Sob a mesa de mogno, uma série de retratos mostrava a família. Esquiando na neve. Vestido de Papai Noel, o homem loiro de olhos azuis fitava a câmera, a barba longa não escondia o meio sorriso, mas os olhos eram frios. Em outra foto, as crianças brincavam em um balanço. A mãe fazendo compras, sacolas cheias. Os dois meninos na loja de doces. O pai e a garota comprando marionetes. Momentos diversos, mas sempre com olhos tristes e vazios, olhos de quem tem tudo, mas para quem falta algo, como um dia ela mesma fora.
 Lucia subiu as escadas devagar, sabia que deveria ser silenciosa, quieta, o pai e a mãe não deveriam estar ali. Entrou pelo vão da porta, o cofre estava aberto e o pai e a mãe se abraçavam, contentes, o ambiente na mansão era opressivo. A casa poderia brilhar de tão limpa, entretanto um cheiro de mofo desprendia dos móveis apesar de lustrados diariamente.
Havia algo errado.
Mais alguém subia as escadas, Lucia queria chamar os pais e avisar, mas não conseguia se mover. A casa não estava vazia como havia imaginado. Enquanto recolhiam o dinheiro na sacola, o gringo entrou no escritório silenciosamente e acertou a cabeça de Antonio com violência. Lucia gritava junto com a mãe, que tremia e não conseguia atirar, até que finalmente ela disparou, uma, duas, três vezes, somente na terceira vez o acertou.  O homem não morria, agonizando, ele cambaleou até ela, o sangue pingava no tapete branco como a neve quando ele avançava  em direção a Claudia. Ela apenas tremia, em choque, erguendo as mãos para se defender, não conseguia reagir, havia algo no olhar dele. O gringo levou a mão ao ferimento e fitou o seu sangue, como se não acreditasse, quase se arrastando em direção a ela, que se afastava em direção a parede. Nas mãos sujas de sangue, o globo natalino que atacara Antônio. Ao se aproximar, ela apenas tremia, erguendo as mãos para se defender. Lucia gritou, o homem, que parecia pronto para lhe agredir, desviou o olhar, como se a visse, e apenas entregou o globo nas mãos de Claudia e caiu ao chão. Desesperada, Claudia correu, sem olhar para trás, enquanto Lucia gritava para que ela voltasse e socorresse o pai, que agonizava.
Mas ela não voltou, Lucia sabia o que viria a seguir, não precisava de sonhos para saber, a mãe seria encontrada morta pouco tempo depois, enforcada em um hotel a beira de estrada, a filha levada a um orfanato, não haveria dinheiro algum entre os pertences, apenas algumas cartas e um pequeno globo natalino, obra de algum artista desconhecido.
Lucia desceu as escadas e preparou-se para partir.
— Ainda não Lucia, não vá embora!
Andréia, meu nome é Andréia, Lucia já não existe.

E Andréia acordou, soluçando desesperadamente. Era véspera de Natal e o passado merecia ficar no passado. Quando finalmente se acalmou, olhou para a filha, cujos cílios se moviam levemente e imaginou que sonhava, enrolada no edredom, o suor escorrendo no pescoço magro. Andréia ligou o ventilador, fechou as cortinas e a deixou dormir um pouco mais.
Finalmente entendia todo o mal estar que muitas vezes o pequeno globo lhe passara; o objeto, que sempre julgara uma herança de amor e carinho, era uma maldição, um símbolo maldito, o trabalho de um artista meticuloso, no entanto frio. 
Ela sabia o que fazer. Na sala, observou a árvore de natal, os enfeites, os presentes. Na estante, o globo. Pegou-o com cuidado e o observou com a lupa. Sacudiu, mas a neve não caiu. Quase sentia a rigidez das miniaturas. Na cozinha, pegou o martelo e sem pensar duas vezes, bateu com violência, apenas uma leve fenda se formou na superfície transparente. Golpeou novamente, com todas as forças que possuía.
No quarto, Mirella gritou.


V

— Não vá embora, mamãe.
Mirella não queria estar ali, mas a menina segurava com força o seu braço, havia muito sangue espalhado pelo chão e o frio doía-lhe nos ossos.
— Você precisa ver o que ele fez.
Lucia desceu correndo as escadas e a menina chamou por ela. Mas a mãe gritou que não era mais Lucia, e sim Andréia. Estava sozinha agora. Avançaram pelos corredores.
— É o atelier do meu pai. Vem!
           O cheiro era horrível, diversos animais empalhados, que Mirella reconheceu como renas e cães. Uma mulher sorridente segurava uma sacola de compras e dois meninos brincavam em um balanço. Não conseguia acreditar, mas eram pessoas.
— São meus irmãos e minha mãe. Era o que ele estava fazendo naquela noite, meu pai nos prendeu aqui. Embalsamados vivos.
Mirella estremeceu.
— Mas e você?
— Eu também estou aqui, lembra-se da loja de doces? Veja — e apontou, em um canto, a sua imagem, uma garotinha de cabelos cacheados carregava uma sacola de doces.
— Nós estamos presos aqui, ele nos prendeu. Ele também está aqui, você o viu.
— O Papai Noel?
— É...
Mirella caminhou pela sala.
— A minha  avó o matou.
— Ele já não pode nos fazer mal, apenas não podemos sair. Somos malditos, aqui, mas você não é, é apenas...
Um barulho terrível  interrompeu o que diziam.
— Não, ainda é cedo demais—, a menina gritou, enquanto a puxava pelas mãos.
As estruturas da velha mansão estremeceram, as crianças correram para as ruas e viram uma pequena fenda se abrindo na superfície que cobria a cidade. Algo estava acontecendo.
Mirella gritou enquanto via a cidade desmoronar sobre eles.
— Mamãe! — E estendeu os braços.

Mas era tarde demais. As migalhas do que outrora fora um bonito globo natalino se espalharam pela cozinha. Naquele e em outros natais, as ruas veriam uma mulher enlouquecida, procurando em globos natalinos, a filha desaparecida.

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