Sementes do mal




Sementes do mal

Por Tânia Souza

Sim, ouçam-me mundanas e damas de vontade duvidosa, ouçam essa que vos fala em púlpito nefasto. Também eu conspurquei meu corpo e minha alma em pecado e devassidão, entanto, tivera comigo nos caminhos de ignomínia e desonra promessas de régia recompensa.

Mãe! Seria a mãe de um príncipe, herdeiro e guia para muitos, edificaria um reino para o rei dos reis, ao meu amado; enfim, na noite onde o silêncio imperava e horrores insinuavam-se entre as árvores, entregaria este tesouro e teria enfim a recompensa. Eu seria rainha.

Tampouco importava a dor que me sangrava por dentro nos últimos dias, podia senti-lo revirando minhas entranhas, ferindo-me com unhas pontiagudas... Meus pensamentos estavam fixos no triunfo. Cercavam-me, em sonhos mórbidos, vultos e portentos; podia senti-los ao meu redor, no cheiro ocre e nauseante surgia e desaparecia conforme a dor voltava.

Eis então, era chegada a hora. Gritei ao meu amado e mestre que viesse receber a oferenda, o filho esperado, a herança, o caminho da nova era. Ouviu a Terra uma ópera crescente, como orquestra insana surgiam lamentos profundos, cantigas mórbidas. Uma fina camada de suor cobria minha pele quase translúcida, entre gemidos de dor e espera, vislumbrava faces cruéis nos recantos sombrios da casa abandonada onde, como animal, eu procurara abrigo. Eram vultos, brisas mórbidas, mãos que se estendiam em jubilo e depois se recolhiam. Faltava-me às vezes o ar perante a densa angústia que se espalhava, ouvia então o choro de anjos meninos e sentia como se fora ali, entre as paredes mofadas, o nascer de toda solidão

A dor tornara-se insuportável e expeli uma massa disforme de carne e massa que grunhia e debatia-se. Vi com horror a espinha retorcida, a pele disforme e nebulosa, de um rosto sem face abriu-se um único olho, amarelo e purulento, tomado pelas mais doentias infecções, entre as pálpebras necrosadas surgiam dentes lisos e brilhantes. Arfei, a voz faltou-me e com as poucas forças que me restavam tentei afastar-me da criatura que lançava na noite vagidos horripilantes. Arrastando-se pelo chão imundo e sangrento, debatia-se em busca de ar, balançando inúmeros braços cobertos por pêlos cinza. Ah, o horror. Eis que chegara o rei e seu séquito e minha promessa não fora cumprida. Fora eu impura para tão nobre senhor.

Seu olhar ferveu em ódio e de um movimento brusco, feriu-me com unhas pontiagudas, lacerou meu ventre até que uma mistura de carne e sangue espalhou-se e para delírios e risadas dos convivas, a criaturinha recém parida lançou-se esfomeada aos meus dilacerados membros até ser levada com eles.

Eu fora inutilizada, a mulher em mim morrera para sempre. Este castigo eu merecera por minha inaptidão, sigo viva para cumprir meu destino, suja, maltrapilha, maldita; caminho em busca da noiva perfeita, não fora ainda nesse ventre dilacerado que meu príncipe encontraria nefando acalanto, porém, será no ventre de uma jovem como vós, perdida em eterna noite de sombras, que a semente de meu senhor terá abrigo e, enfim, seu reino será real. 

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