poeta, eu?


eu, poeta?

eu que já não me acho e já não me há espaço
nessas velhas palavras que já não me cabem

eu que-em-dente-carne-sangro-me
em resquícios de verves viciadas

essas inocentes palavras
expostas e nuas nas esquinas
enquanto sorvem, bêbadas,
moedas de troca
de um sonho qualquer

essas debochadas palavras
elas que se dão a uns e a outros
permissivas e lascivas
ofegantes de becos e espelhos

elas que se arrastam no lodo e na infâmia
e sempre com a mesma doçura
desvendam aquarelas ao entardecer

e  eu que de longe apenas espio
desaprendida de ser

poeta
eu?

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