Para dias de chuva e outras melancolias Ou quando chorar é uma opção


A solidão não é tão bonita quanto nos livros.
A tristeza nem sempre se recolhe em abraços.
Nem todas as lágrimas morrem em beijos.
E nem sempre as palavras ditas, ouvidas ou escritas, têm poder de curar...

Para dias de chuva e outras melancolias
Ou quando chorar é uma opção

Tânia Souza

Não chore! Enfrente! Recomece! Ignore! Siga em frente! As coisas vão melhorar!  Erga a cabeça, é hora de recomeçar...

Palavras... algumas mais delicadas, feitas de vocábulos tecidos em abraços e lenços, outras, se fazem ásperas, vestem faces duras e frias e avisam: choro é para engolir. Lágrimas são sinais de fraqueza.

Palavras, palavras, palavras... e toda uma semântica de sobrevivência.

E a menina que teve o azar de nascer com um imenso e grave caso de sensibilidade um dia cresceu e descobriu que ser sensível demais não é uma boa estratégia. Quando a alma está estilhaçada, melhor sobrevive o rosto em máscara.

Depois, a mulher do agora descobriu que chorar é se por em evidência, chorar é permitir acesso ao mais íntimo da dor ou da alegria, e um dia, finalmente, ela abandonou a menina e aprendeu a não chorar. Por que chorar é ser vulnerável e ser vulnerável é... é ser vulnerável.
E isso, as vezes dói.

Então, ela se veste de forte. É seguro, mas extremamente solitário ali, no cantinho secreto onde a sensibilidade insiste em sobreviver. Alguns dias, os ombros doem, há decisões a serem tomadas, pessoas que pedem colo, nãos e sins esperando para serem ditos... ela bem sabe, isso se chama viver. Também sabe que alguns amigos gostam apenas de sorrisos, tristeza pode ser um interessante repelente. Há também os que se alimentam dela, tão opostos e tão iguais. Alguns poucos são para todas as horas, mas que raros são.

Há também algumas pessoas que podem, e gostam, de ferir as outras! E chorar ou não, não vai impedi-las. Mas ainda assim, persiste. Sorria e siga em frente, algumas vezes ela ainda repete o mantra, abismada consigo mesma por ensinar a mesma lição. Saber todas as cores da indiferença ela não sabe, pensa apenas em sobreviver.

Mas um dia, a força não adianta, o sorriso quer se esconder e os olhos não seguram mais. As lágrimas são assim, de certa forma, independentes. As dores guardadas, a indiferença, os resquícios de algumas tristezas são tocados por situações inesperadas. Assim como há vida, há morte. Assim como se está bem, pode ser estar enfermo, triste ou frágil.

E quase com vergonha, ela percebe que nada lhe resta a não ser chorar!

As lágrimas caem. O nariz fica vermelho, a boca inchada. E ela não tem onde se esconder. E o pior? Outras faces com lágrimas esperam por ela, pelo sorriso e pela força dela. Parece terrível. E é! Mas o sorriso se perdeu, ela sabe que velhas palavras soam vazias.

Então, ela descobre que chorar também é uma opção. Para disfarçar a dor, fala de si em terceira pessoa, mas está reaprendendo que lágrimas compartilhadas ainda doem, mas talvez assim, sejam mais fáceis de secar. Pois, por mais que tenha aprendido a esconder, a menina insistiu em sobreviver.

A solidão não é tão bonita quanto nos livros.
A tristeza nem sempre se recolhe em abraços.
Nem todas as lágrimas morrem em beijos.
E nem sempre as palavras, ditas, ouvidas ou escritas, tem poder de curar...

Mas algumas vezes, essas coisas desimportam e de um jeito ou de outro, é preciso continuar.  

Um comentário:

  1. Homem que é homem não chora... Essa é a cultura de ocultar a dor... De que se permitir a dor e a lágrima é sinal de fraqueza... Muito oportuno o teu texto... Um tema sempre atual e bem colocado... Amei!!!! Um sorriso de alegria para você... (às vezes também se chora de alegria)... Bjs...

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